O Lancia Delta S4 não era apenas um carro de rali; era uma declaração audaciosa, um bólido projetado para a supremacia absoluta na era mais insana do automobilismo: o Grupo B da FIA. Com mais de 500 cavalos de potência jorrando de seu motor central, este monstro italiano foi meticulosamente desenvolvido para aniquilar a concorrência formidável, que incluía o lendário Audi Sport Quattro S1 e o ágil Peugeot 205 T16. No entanto, a história do Delta S4 e do próprio Grupo B não seria um conto de glória contínua, mas sim de uma ascensão meteórica seguida por uma queda abrupta e trágica, que mudaria para sempre o cenário do rali.
Introduzido em 1982, o Grupo B oferecia liberdade técnica sem precedentes. Os carros eram protótipos puros, levemente disfarçados, com potência estratosférica, tração integral e peso mínimo. Fabricantes investiam pesado, e o público afluía em massa. A Lancia, potência tradicional no rali, viu no Grupo B a oportunidade de reafirmar seu domínio. Após o sucesso do 037, que começou a sofrer contra os carros 4×4, a marca italiana precisava de uma nova arma.
O Lancia Delta S4, apresentado no final de 1985, era essa arma. Sob sua carroceria angulosa, que lembrava vagamente o Delta de rua, escondia-se uma máquina de engenharia avançada. O coração do S4 era seu motor de 1.759 cc, um quatro cilindros em linha montado longitudinalmente na traseira. O que o tornava único era o sistema de sobrealimentação “twin-charged”: um supercharger Roots para potência instantânea em baixas rotações, combinado com um turbocompressor KKK para empuxo máximo em altas rotações. Essa solução eliminava o temido “turbo lag” e garantia uma entrega de potência brutal e linear. Oficialmente, a potência era declarada em torno de 480-500 cv, mas estimativas não oficiais sugeriam que, em qualificação, o S4 podia superar facilmente os 600 cv.
Além da potência avassaladora, o S4 contava com tração nas quatro rodas permanente, distribuindo o torque para maximizar a aderência em qualquer superfície. A carroceria era construída predominantemente em fibra de carbono e Kevlar, mantendo o peso em torno de meros 890 kg – uma relação peso-potência que rivalizava com muitos superesportivos da época. A suspensão de longo curso e os enormes freios eram dimensionados para domar a ferocidade do carro em qualquer terreno.
Quando estreou no RAC Rally de 1985, o Delta S4 causou impacto imediato, conquistando uma vitória esmagadora com Henri Toivonen e Markku Alén. Parecia que a Lancia tinha o campeão, um carro para desbancar Audi e Peugeot e devolver a glória. A temporada de 1986 prometia ser uma batalha épica, com o S4 liderando a carga.
Contudo, “a história foi outra”. A temporada de 1986 tornou-se um marco sombrio. A busca implacável por velocidade, combinada com a falta de segurança para espectadores e a fragilidade estrutural dos carros, cobrou um preço alto. O Delta S4, ironicamente, esteve no centro de dois dos incidentes mais trágicos. No Rally de Portugal, Joaquim Santos perdeu o controle de seu Ford RS200, atingindo a multidão e matando três espectadores. Mas foi o Rally da Córsega que selou o destino do Grupo B. Em 2 de maio de 1986, Henri Toivonen, o jovem e promissor piloto da Lancia, e seu co-piloto Sergio Cresto, sofreram um acidente fatal em seu Delta S4. O carro, alimentado por seu vasto tanque de combustível e materiais leves, incendiou-se quase instantaneamente.
A tragédia de Toivonen e Cresto, somada aos outros acidentes e à crescente preocupação com a segurança, levou a FIA a uma decisão drástica: o Grupo B seria banido a partir do final da temporada de 1986. Assim, o Lancia Delta S4, o ápice da engenharia de rali, criado para dominar, teve sua carreira tragicamente interrompida. Ele se tornou o símbolo de uma era que, embora espetacular, era insustentável. O S4 é lembrado hoje não apenas por sua potência brutal e tecnologia avançada, mas também como o carro que, indiretamente, assinalou o fim de uma das eras mais fascinantes e perigosas do automobilismo, um monumento à ambição e às consequências da busca desenfreada pela velocidade.
Deixe um comentário